ALTA E BAIXA TEMPORADA EM JERICOACOARA

16/05/2011 23:38

 JERICOACOARA, CEARÁ - Segunda-feira, 8 de novembro de 2010, 23h: a rua principal de Jericoacoara está lotada, drinques são preparados sem interrupção nas barracas de caipifruta e rola um forró animado no bar. É possível escutar pelo menos dez idiomas diferentes, e sotaques de todas as regiões brasileiras. Corta. Agora já é sábado, 29 de janeiro, por volta de 1h da manhã: há poucas pessoas nas ruas, e os vendedores de capeta fazem de tudo para conquistar um freguês. É noite de forró, a única da semana - em novembro o arrasta-pé acontece também às segundas e sextas. Na teoria, qualquer praia brasileira tem muito mais visitantes em janeiro do que em novembro, certo? Mas a lógica em Jeri é outra, regida pelos ventos. São eles que trazem grande parte dos turistas, interessados em praticar windsurfe e kitesurfe. Os alísios sopram com força entre julho e dezembro - e é esse o período da alta temporada, o que explica a brutal diferença na quantidade de turistas nas duas últimas visitas que fiz a essa vila cearense, que não mudou muito nos últimos dez anos. Ou melhor, mudou, sim, ainda que a paisagem seja praticamente a mesma de oito anos atrás, quando estive ali pela primeira vez. Hoje Jeri tem pousadas charmosas, com confortos inimagináveis até pouco tempo, como terraços com hidromassagem e adegas vistosas, além de uma boa seleção de restaurantes, bares, cafés, lounges, lojinhas, spas. Os arredores também foram desbravados, e lugares como Camocim, Jijoca de Jericoacoara (a sede do município) e Icaraí de Amontada (ou Icaraizinho), apenas alcançados de buggy, ganharam vida própria, e já aparecem nos guias de viagem como um complemento perfeito para a temporada na mais famosa praia do Ceará.

 
Nova Jeri tem chope artesanal, bar de vinhos e galeria de fotos

Com os pés descalços na areia, vejo uma jangada de velas vermelhas cruzar a minha frente, navegando tranquila com a força dos ventos no mar raso de ondas fracas. Na taça, um branco argentino, que prepara o apetite enquanto aguardo o robalo com molho de lagosta. Estou sentado à mesa do restaurante do hotel Mosquito Blue, em Jericoacoara. Era a minha primeira tarde na vila. Refletia sobre como a paisagem do lugar não mudou muito nos últimos anos, desde aquela minha primeira visita, em janeiro de 2003. Mas a infraestrutura, sim. Abriram as portas novos hotéis, restaurantes e bares, lojinhas charmosas, ateliês de artistas plásticos e spas com tratamentos de todo tipo. Jericoacoara está mais confortável, menos rústica, sem dúvida, e continua linda.
 
Entretanto, assim como o cenário, os programas clássicos do lugar não mudaram: o forró seguido dos pães recheados na madrugada, a Duna do Pôr do Sol para apreciar o fim de tarde, os passeios de buggy, as tardes vadias com o corpo deitado nas redes armadas dentro das lagoas, a degustação de lagostas e ostras frescas, os esportes embalados pelo vento, a caminhada pelo Serrote até a Pedra Furada...

 

Há dois meios de se chegar à Pedra Furada: a pé ou de charrete (R$ 15 por pessoa, ida e volta). Quando a maré está alta, é preciso atravessar o Serrote, a falésia que começa no canto direito da vila e se estende por alguns quilômetros. A vista é linda. Mas é melhor ir pela areia: quando a maré baixa é possível seguir caminhando pela praia. A pedra rende fotos bonitas em qualquer época do ano. Mas entre os dias 10 de julho e 15 de agosto o sol se põe estrategicamente no meio do buraco formado ao longo dos séculos pela ação das ondas. É tão digno de aplausos quanto Ipanema no verão. As palmas acontecem no alto da Duna do Pôr do Sol. O pessoal sobe a duna mesmo nos dias nublados, porque o espetáculo, mesmo em condições climáticas adversas, é uma beleza. Na pior das hipóteses, vale a vista do acender das luzes da vila de Jeri. Inesquecível.
 
Mas é verdade que parte de sua personalidade foi descaracterizada: ainda que alguns moradores busquem na rede jogada ao mar o seu sustento, Jericoacoara não é mais uma vila de pescadores, mas sim um destino turístico de fama internacional. O crescimento acontece de maneira ordenada, porque há imenso rigor para permitir construções neste pedaço privilegiado do nosso litoral, protegido pelo parque nacional, com ruas de areia e circulação restrita de carros (só veículos credenciados podem trafegar na vila). Também é verdade que vemos algum lixo acumulado e há problemas de saneamento e imenso tráfego de turistas que chegam num dia e vão embora no outro, circulando em jardineiras que mais parecem ônibus. Mas basta a gente se lembrar de outros lugares do nosso litoral para percebermos que Jericoacoara continua sendo um brinco.


A novidade da temporada é o stand up surfe, modalidade com pranchões movidos a remo, cujos praticante podem apenas navegar ou então pegar ondas. No período de janeiro a junho, quando os ventos cessam, são eles que dominam o mar de Jeri, e é possível contar mais de duas dezenas de pranchões de uma só vez ali no canto direito da vila. Outra boa nova é a Zchop, primeiro lugar a vender chope em Jericoacoara que serve uma marca artesanal, a Lupus Bier, de Fortaleza, leve e gostosa.

O comércio também mudou bastante, e há fenômenos curiosos, como as joalherias, que proliferam por ali devido ao grande número de estrangeiros: há pelo menos seis delas, vendendo peças em prata e ouro com pedras preciosas. Entre os ateliês de artistas vale a pena destacar a galeria Vaivendo, de fotografias, um ótimo lugar para comprar uma lembrança diferente da viagem: as imagens são lindas e o lugar, uma graça.
Uma das primeiras pousadas de Jericoacoara a apostar em um perfil de público mais exigente, a Mosquito Blue não funciona apenas para os seus hóspedes, que dispõem de quartos amplos e confortáveis: o spa, que é o melhor da vila, além do restaurante e do winebar, também entre os mais recomendados, estão abertos a todos. O restaurante que me pôs a pensar em como este lugar mudou (ou não) serve ótimos vinhos, com preços a partir de R$ 40 a garrafa, incluindo champanhes (Veuve Clicquot) e rótulos italianos especiais, como alguns barolos antigos (tem até de 1996) e os míticos Sassicaia (R$ 800) e Guado al Tasso (R$ 750).


Pelo menos outros dois hotéis merecem uma visita dos que não estão hospedados nele: Chili Beach, com vista arrebatadora do pôr do sol, e um lounge e um restaurante muito agradáveis para se visitar no fim da tarde, e a Vila Kalango, que é rústica e chique na medida: peça uma caipirinha de caju no bar com chão de areia para ver como é isso.

A gastronomia também acompanhou essa evolução e a cozinha italiana reina soberana ali. Ainda é possível encontrar pescados frescos em preparações simples em restaurantes e barracas de praia, mas risotos, pizzas no forno a lenha e carpaccio de peixe fazem parte da realidade na vila em endereços de orientação italiana, como o Girassol, que serve um famoso nhoque; o Il Faro Branco, bom endereço para massas; o Nômade e o Dellacasa, essas últimas duas respeitáveis pizzarias.
Mesmo os restaurantes que não se dedicam à especialidade também apresentam fortes inclinações italianas, como o Pimenta Verde, que oferece massas diversas e risotos, como o Chiquérrimo, com camarão, cogumelos e palmito, e o Tamarindo, que além de lindo e agradável, tem serviço simpático e serve pratos acertados, de inspiração oriental, muitas vezes usando frutas como a própria que lhe batiza, além de pizzas e massas.

Uma das primeiras a apostar em uma gastronomia mais refinada e internacional em Jeri foi a paulistana Patrícia Andrade Maia, que no fim de 2002 abriu seu restaurante, o Chocolate, hoje em uma área mais ampla, servindo risotos e um já famoso bolo com recheio cremoso que lhe rendeu o apelido de Pat Gâteau. Atualmente a chef se dedica aos ingredientes amazônicos.

Para buscar uma cozinha de viés mais verde e amarelo o lugar certo é o restaurante Na Casa Dela, provavelmente o mais agradável e simpático da vila, com cardápio que passeia por moqueca e churrasco. E não se pode falar de cozinha em Jeri sem lembrar do Carcará, inaugurado em 2001, um dos mais tradicionais, onde é possível encontrar bonitas peças de artesanato local, além de bons pratos de caráter internacional, como filé ao molho de mostarda, camarão ao curry com manga, ceviche e polvo à provençal. Sem falar em risotos e massas, claro.
Icaraizinho de Amontada, a novidade da temporada
As pessoas têm mania de comparar lugares. Há quem se refira a Camocim como "uma nova Jeri". Ou que afirmem que Icaraí de Amontada é "parecido com a Jericoacoara de 20 anos atrás". Não, não é bem assim. Camocim e Icaraizinho são destinos interessantes, que merecem a atenção. Mas não, não têm nada a ver com a Jericoacoara de 30 anos atrás, nem de 20, nem de dez, nem de cinco. São apenas duas novas praias cearenses que começam a ganhar notoriedade - principalmente a segunda, um segredo, por enquanto, bem guardado.


Mais que um destino em si, Icaraizinho é um bom passeio de um dia a partir de Jeri, rumo ao leste. Mas não é tão simples assim.
- Dos cerca de 200 bugueiros da associação, só uns cinco sabem fazer o caminho até Icaraizinho. O mangue é traiçoeiro, tem que ter as manhas, além de conhecer o terreno, o comportamento da maré - gaba-se, com razão, Charles Oliveira da Silva, um dos mais habilidosos condutores de buggy de Jeri, profundo conhecedor dos caminhos da região e gente boa.
O passeio até Icaraizinho é uma aventura. E é preciso reservar um dia inteiro para a jornada, que faz jus ao ditado chinês que diz que "o importante é o caminho". Começa, como tantos outros, pegando a estrada de terra até a Praia do Preá. Logo chegamos às Dunas da Barrinha, uma paisagem que, até o meio do ano, se parece com uma versão miniatura dos Lençóis Maranhenses em época de chuva: montes de areia com lagoas cristalinas entre eles.
Logo avistamos o primeiro parque eólico do dia, na localidade de Morgado. Antes de chegar à praia de Torrões, importante entreposto de pesca, especialmente de lagosta, passamos por uma unidade do Projeto Tamar. No vilarejo de Enseada dos Patos fazemos a primeira travessia de barco, para cruzar um rio numa espécie de tábua.


- Está vindo uma barca, ou vamos nesse pedaço de madeira aí? - perguntei ao Charles, que me tranquilizou alegando nunca ter tido problema.
É aí que a brincadeira fica mais divertida. Vamos ziguezagueando pelo meio do manguezal, uma paisagem linda com aroma nem tanto. Cruzamos riachos sem ponte, deslizamos em imensos lamaçais, jorrando barro em todo o buggy, cuja cor original desaparece. Em alguns trechos Charles para o carro e vai pessoalmente conferir as condições de, digamos, tráfego, muitas vezes afundando na lama até quase o joelho:


- Dá para ir, vamos em frente.
Em outros pedaços do trajeto são pedaços de pau que ajudam o veículo a manter a tração, quase todos colocados ali pelo próprio Charles. À certa altura, avistamos grandes cata-ventos - é o parque eólico, marca registrada da paisagem de Icaraizinho. Parece pertinho, mas ainda gastamos um bom tempo até lá. Há mais uma travessia de rio, dessa vez numa balsa que faz um pouco mais de jus ao nome, que nos deixa em Barra das Moitas.
Depois de mais de duas horas de viagem, Icaraizinho se apresenta. A primeira parada é na pousada Vila Mango, inaugurada em 2009, a melhor do lugar. Há mais outras duas pousadas com boa estrutura: a País Tropical e a Rio Verde, ambas de 2008. E só.


Se os cata-ventos marcam a paisagem em terra, no mar chamam a atenção, além das embarcações de pescadores, a grande quantidades de pipas de kitesurfe, colorindo os céus na temporada de ventos, e também algumas pranchas de windsurfe, que ali convivem pacificamente.
Para matar a fome encontramos um lugar improvável, o Praiazinha, tocado por um casal de franceses, Julie e Gautier Piraut, praticantes de windsurfe e originários de Marseille, que abriram o bar há menos de um ano. Às terças-feiras servem churrasco e, aos sábados, tem sempre música ao vivo. Para comer, uma miscelânea de receitas de diversas procedências, incluindo bolinho de bacalhau, ceviche, camarão frito, ostras cruas...


De buggy, para o leste e para o oeste
Buggies são uma tradição controversa em Jericoacoara. Alguns motoristas, irresponsáveis, trafegam pela vila em velocidades incompatíveis (cuidado com as crianças, sempre), assim como pela praia, atrapalhando banhistas e praticantes de kitesurfe, ameaçando o equilíbrio ambiental. Ao mesmo tempo, são o único meio de se chegar a alguns dos recantos mais belos da região, e é mesmo uma delícia passear sem camisa, com o vento no rosto, na beira da praia (muita atenção ao protetor solar) sentado na parte de trás. Então, não tem jeito, nenhuma visita a Jericoacoara é completa sem ao menos dois passeios de buggy: um rumo a leste, outro a caminho do oeste.


Tomando a direção oriental encontramos dois roteiros clássicos, que podem ser condensados em um único, mas cansativo, dia de passeio: a Lagoa Azul, já velha conhecida dos visitantes de Jeri, e também as lagoas Formosa e Pinguela, novidades relativamente recentes, mais rústicas e menos frequentadas. Isso, sim, com jeito de Jericoacoara de anos atrás.


Na volta a boa é parar no restaurante Azul do Mar, um dos melhores da região, com ótimos pratos de peixes e frutos do mar, preparados sem firula, de maneira segura e com correção. O restaurante segue uma fórmula campeã: pescados frescos em receitas simples. Assim, aposte no peixe assado e nos camarões grelhados, aproveitando a vista para o mar e as jangadas. A casa é conhecida não só pela boa comida, mas pela morosidade no preparo dos pratos. O motorista do buggy que quer voltar logo para casa vai sugerir que, na ida para a Lagoa Azul, você dê uma paradinha no restaurante para já escolher e pedir o seu prato. Não faça isso, por favor. Frutos do mar, como se sabe, são sensíveis, e o melhor mesmo é pedir logo antes de comer. Até porque, afinal, esperar uma refeição bebendo uma cervejinha gelada e mirando o mar, com direito a mergulhos entre um gole e outro, não é um programa que se possa classificar de desagradável.


O restaurante fica na Praia do Preá, essa, sim, uma vila de pescadores que remete à Jericoacoara de antigamente, com uma fileira interminável de jangadas coloridas com velas arriadas, grande parte delas com nomes de mulher. É a imagem da capa desta edição, e sobre a Praia do Preá, reduto dos praticantes de kitesurfe, você vai ler um pouco mais na página seguinte.


Seguindo em direção a oeste está Camocim, que já não é nenhuma novidade. Fica nos domínios deste município um dos programas mais famosos e imperdíveis de Jericoacoara: o passeio até a Lagoa da Torta, também chamada Tatajuba por ficar nesta localidade, com acesso a partir de Mangue Seco e Guriú, onde é preciso tomar uma balsa. Os moradores de Camocim mostram orgulho de serem "donos" deste pedaço, incomodados com a fama de Jeri ser infinitamente maior.


Em Tatajuba é preciso conhecer dois personagens: Dona Delmira, antiga moradora que conta as histórias da região (como a passagem sobre como a vila de Tatajuba foi coberta pela areia das dunas nos anos 1960), e Didi, dono da barraca que serve os melhores peixes e frutos do mar às margens da Lagoa da Torta, que tem pelo menos uma dezena de bares. Certamente o motorista do buggy vai levar até Dona Delmira. Já para a barraca do Didi, talvez não (sabe como é o regime de comissionamento, né?). Então, anuncie logo que quer comer no Didi, que fez fama por apresentar uma bandeja com os pescados do dia, e cada um escolhe o seu: há camarões, lagostas, robalos... Outra boa pedida ali é comprar umas ostras com os vendedores ambulantes, sempre frescas e baratinhas (na faixa dos R$ 8 a dúzia).


Além de escutar os causos de Dona Delmira e saborear os pratos de Didi, há um outro programa obrigatório: se deitar nas redes de tecido que ficam dentro d'água. Pode parecer bobagem, mas é uma das maiores delícias proporcionadas pela região de Jericoacoara.
Vale a pena combinar com o bugueiro de esticar o passeio até Camocim. Ou, então, para quem vai ficar mais de cinco dias, dedicar um dia inteirinho à cidade. Longe de poder ser chamada de "Nova Jeri", Camocim tem lá o seu charme, mas desde que você se afaste do núcleo urbano principal, onde chegam os barcos. Melhor pedir ao motorista para seguir pela praia até encontrar recantos mais isolados, como Maceió, uma pacata e agradável vila de pescadores e, principalmente, Barra dos Remédios, sem dúvida uma das mais lindas praias do Nordeste. É o tipo do lugar que vale a viagem.

COMO CHEGAR:
De carro ou ônibus: O mais confortável é combinar um transfer para ir do Aeroporto de Fortaleza para Jericoacoara. Custa R$ 450 por trecho, para até quatro passageiros. A Transfer Pedra Furada (tel. 88 3669-2299) é uma das empresas que oferecem o serviço. Outra possibilidade é viajar pela Viação Redenção (tel. 85-3256-2728, www.redencao online.com.br ), que faz o trecho Fortaleza-Jijoca de Jericoacoara de ônibus, e então os visitantes seguem por mais 40 minutos até Jericoacoara de jardineira. A passagem custa R$ 50 (cada trecho, com jardineira incluída).

FONTE: VIAGEM

 

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